A Irlanda, Dublin e a Guinness

A Irlanda

Numa análise fria, sem maiores detalhes ou riqueza de retratações, pode-se dizer que a história da Irlanda se confunde com a história da cerveja Guinness, e um dos vários motivos é que tanto a Ilha Esmeralda quanto a famosa cerveja têm como palco para o centro de suas atenções a cidade de Dublin, que é a capital do país. Outras tantas coincidências são vistas quando da criação da cerveja, em 1759 por Arthur Guinness, com o início das grandes debandadas irlandesas (devido à fome, principalmente) para outros países, em sua maioria para os EUA. E foi justamente com a criação da Guinness que os irlandeses puderam beber uma cerveja com a cara da Irlanda, já que antes eles eram dependentes das cervejas inglesas, sendo que a Irlanda também era subordinada à política da Inglaterra, tendo conquistado sua independência após 1922, quando inúmeras cervejarias já haviam aberto suas portas motivadas pela Guinness, selando então a independência cervejeira naquelas terras.

Vale lembrar que uma outra cervejaria já havia sido fundada em 1710, a Smithwick´s, porém ela seguia os passos da escola inglesa de cervejaria sem muito se diferenciar das cervejas produzidas na Inglaterra. Ou seja, a Guinness foi quem deu uma personalidade ao que se pode chamar de cervejas irlandesas.

 

Há quem diga que houve dois caminhos inversos nessa história, o que não deixa de ser verdade, já que, se antes a Irlanda mandava o seu povo para outros países, hoje a taxa de emigração é baixa enquanto a chegada de imigrantes cresce a cada dia. E em um caminho reverso temos a Guinness, que deixou de ser estritamente uma cerveja Irlandesa, consumida apenas em seus pubs, para ser produzida localmente em mais de 55 países e comercializada em mais de 150 países. Se os irlandeses ganharam o mundo no passado, agora é a vez da Guinness.

Famine Memorial, Dublin

Famine Memorial – Memorial da Fome em Dublin

Saint Stephen's Green em Dublin

Entrada principal do parque Saint Stephen’s Green, no centro de Dublin. A família Guinness pagou a sua reforma em 1880 e ele não sofreu mudanças desde então.

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Dublin

Andar pelas ruas de Dublin e não sentir o cheiro do malte sendo processado, da cerveja sendo produzida, é algo quase impossível e, caso aconteça, pode-se dizer que foi obra de um desastroso acaso. Mas se o contrario (e o mais possível) acontecer, com certeza o seu desejo de tomar uma pint (por lá é comum de se dizer que irá tomar uma pint, independente do formato do copo ou se você vai tomar cerveja de garrafa. Sair para tomar uma cerveja é sair para tomar uma pint… que nunca é uma só) será despertado e nada melhor do que aplacá-lo. Mas antes eu recomendo que você visite a cervejaria/museu da Guinness em Dublin, onde você poderá “vivenciar” um pouco da história da própria fábrica e também da cerveja.

Fábrica da Guinness em Dublin

Em frente a um dos grandes portões da cervejaria Guinness.

Ao final da visita você pode escolher entre degustar sua cerveja no Gravity Bar, que é um bar em 360º que fica no topo da fábrica, sendo o ponto mais alto de Dublin (se você der sorte de não estar chovendo no dia, a vista é linda, podendo-se observar quase toda a cidade), ou então você pode se inscrever no “Curso de Tirador da Pint Perfeita”, no penúltimo andar e aprender o porquê dos irlandeses serem tão rigorosos ao servir e degustar a Guinness. Bom, eu mesmo visitei a fábrica duas vezes, uma sozinho, para poder curtir cada cm³ do lugar, inclusive o Gravity Bar e outra quando, finalmente, eu consegui convencer uns amigos de que precisávamos aprender a servir uma pint de Guinness.

Pint perfeito

Após receber o certificado de “tirador do pint perfeito”.

Após a visita à fábrica, o que leva pelo menos 3 horas para começar a valer a pena, dê uma passadinha no Brazen Head, um pub charmoso, fundado em 1198, considerado oficialmente o mais antigo da Irlanda. Aproveite e peça um Guinness Irish Stew, um prato típico irlandês (na verdade, o prato típico chama-se apenas Irish Stew, mas algumas receitas levam Guinness) que é basicamente um farto ensopado de carne bovina, com alguns poucos condimentos, variando de receita para receita, muito pouco sal (o que é comum na culinária irlandesa: pouco sal e pouco tempero) e um molho a base de Guinness, tudo isso servido em um Yorkshire Pudim, que é uma massa inglesa bem leve parecida com um pão em formato de cuia. Depois disso tudo, vá passear, dar uma volta ao longo do rio Liffey e, caso ele esteja bem cheio (sua profundidade varia com a maré), aproveite para fazer um passeio de barco, porque depois de algumas Guinness e um Irish Stew, é bem provável que você precise de um bom tempo para digestão. Se ficar com preguiça, vá para casa, albergue ou o hotel onde você estiver hospedado e descanse, porque com certeza você ainda vai ter muito o que fazer em Dublin. Mas se esse não for o seu caso e você ainda quer continuar tomando uma Guinness, não se preocupe, ela é facilmente encontrada em quase qualquer pub de Dublin e da Irlanda
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Por do sol no Rio Liffey

Por do sol visto das margens do rio Liffey, em Dublin.

E já que falamos de pub, a venda de cerveja nesses estabelecimentos é a responsável por quase todo o consumo interno de cerveja da Irlanda, o que representa pouco menos que a metade de toda a produção irlandesa. A outra metade é exportada. Não existe nenhum país do mundo que consuma mais cerveja per capita em bares do que a Irlanda (não que ela seja a maior consumidora de cerveja per capita em geral. A República Tcheca e a Alemanha estão na frente). E em Dublin não há um só pub que não seja animado, embalado por rock, jazz, blues e, em muitos casos, música típica irlandesa, além de muita cerveja. Claro que existem outros tipos de casas noturnas, como boates, mas acredito que este não seja o caso. Pelo menos não para esse post.

Os irlandeses costumam ser bem receptivos, alegres e orgulhosos em fazer os turistas se sentirem bem, seja onde for, tanto que não é raro algum irlandês ou um grupo de irlandeses se aproximar de você, caso esteja bebendo sozinho em um pub, e perguntar se você está só e convidá-lo a se juntar a ele(s). Vou falar disso em outro tópico, com mais detalhes. Mas já adianto que os irlandeses fazem valer a pena a sua estadia por lá.

Como dito antes, você vai encontrar uma Guinness em quase todo pub irlandês, mas existem dois pubs em especial os quais todos os especialistas locais vão recomendar: John Kavanagh “The Gravediggers” e o Brogan´s Bar.

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Onde encontrar as melhores pints de Guinness em Dublin

The Gravediggers

The Gravediggers (traduzindo, “Os Coveiros”), um pub localizado na parte norte de Dublin e um pouco afastado do centro, ganhou esse apelido por estar situado ao lado de um grande cemitério (Glasnevin cemetery) de Dublin. Diz a lenda que antigamente, logo da fundação desse pub datada de 1833, quando os coveiros queriam tomar uma pint de Guinness, eles jogavam uma pá cheia de terra contra a parede da fachada do pub, daí veio o apelido. É meio sombrio, claro, ainda mais com a atmosfera escura e a decoração antiga que ambienta o lugar. Mas o seu dono, Eugene Kavanagh (que faz parte da sexta geração de descendentes de John e Mary Kavanagh a gerenciar o pub) de fazer do pub um espaço agradável e aconchegante. Ele, que “possui o dom da tagarelice” (“the gift of the gab” como os irlandeses costumam afirmar de si mesmos ao dizer que uma de suas heranças é saber tagarelar e nunca deixar que uma conversa fique chata), sempre diz: “não há música, que seja instrumental em caixas de som ou de qualquer outra forma e não temos televisão. Nós praticamos a arte da conversa aqui. Músicos? Não, não gosto de músicos e música no meu bar. Gosto de pessoas aqui.” Ou seja, é um lugar pra beber e jogar conversa fora, nada além disso. E por que eu recomendo o lugar? Simplesmente porque além de toda a história que envolve esse pub e da comida maravilhosa, lá, na minha opinião, é servida a melhor Guinness de Dublin e como as melhores Guinness da Irlanda são servidas em Dublin, logo você encontrará no John Kavanagh “The Gravediggers” a melhor Guinness da Irlanda . Só não digo que é a melhor do mundo porque ainda quero receber convites desafiadores para conhecer as melhores Guinness mundo afora.

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Brogan’s Bar

Já o Brogan’s Bar é um pequeno pub no centro de Dublin (na Dame Street), ao lado do Temple Bar, uma região boêmia/histórica de Dublin (não confundir com o pub de nome Templo Bar, apesar dos nomes virem da mesma origem, exatamente). Em termos de qualidade da Guinness servida lá, eu diria que ele rivaliza com o The Gravediggers, mas se o seu caso é ouvir uma boa música irlandesa acompanhado da melhor Guinness possível, corra para lá e pegue um lugar, de preferência no balcão, onde você vai poder ouvir as mais inusitadas histórias contadas pelos atendentes, que por sinal são sempre muito ágeis e prestativos. Mas não pense que você vai encontrar um cardápio por lá, porque nada além de batatas tipo chips são servidas no Brogan´s. E por que? Porque esse é um outro pub destinado aos tagarelas, aos que querem apreciar um futebol ou rugby sem compromisso e aos que querem conhecer o seu próximo melhor amigo antes de conhecer o próximo e o próximo. Sendo assim, por que perder tempo comendo, o que só iria prolongar a sobriedade e acentuar a “lombeira”? Eu diria que o Brogan´s é o por quê das pessoas no mundo inteiro amarem os pubs irlandeses.

Dublin

Duas pints de Guinness e eu.

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Mais sobre Dublin

A única desvantagem para quem gosta de tomar uma cerveja ao ar livre é que na Irlanda é proibido consumir bebida alcoólica nas ruas, com o risco de ser multado. Eu não me arrisquei (muito) por lá, mas todos dizem que se alguém é pego, esse alguém é convidado e despejar sua bebida, apenas. Mas será que vale pagar pra ver?

Para os marinheiros de primeira viagem em se tratando de Guinness, nunca beba a cerveja antes dela ficar completamente escura (com exceção do seu colarinho) já que ela ainda não estará com o sabor que ela deveria ter. Além do mais isso pode ser considerado uma falta de educação ou ofensa para os irlandeses, uma vez que você estaria bebendo a maior preciosidade irlandesa em termos de cerveja sem que ela ainda estivesse perfeita para ser degustada, sob o risco de ainda sair falando mal da Guinness por aí. No mais, é só esperar o tempo certo e, Sláinte (a versão em irlandês para “saúde”).

Só me esqueci de mencionar que o símbolo da Guinness é uma harpa, instrumento musical que também simboliza a Irlanda. Com mais essa coincidência, não fica difícil dizer que ao se lembrar da Guinness, lembra-se também da Irlanda e que quando se lembra da Irlanda, instantaneamente toda a memória sensorial que você tem da Guinness vem à tona e permanece por um longo tempo.

Sláinte!!!

Endereço: St James’s Gate, Dublin 8.

Funcionamento: todos os dias de 9:30 às 17h (última entrada às 17h). Nos meses de julho o horário de funcionamento é de 9:30 às 17h (com última entrada às 17h). Não abre na Sexta Feira Santa, Véspera de Natal e no Natal e no St Stephens Day.

Endereço: 1 Prospect Square, Glasnevin, Dublin Dublin 9

  • Brogan’s Bar

Endereço: 75 Dame Street, Temple Bar, Dublin.

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  • http://www.blogger.com/profile/10934259625384455894 Luciana Cantanhede Souza

    O tema do blog já é bom e um post sobre Guinness e Irlanda é demais! Seguindo
    conheça meus blogs
    http://dosedesustentabilidade.blogspot.com.br
    http://blogdalucantanhede.blogspot.com.br

    Abraços e boa semana

    • http://www.blogger.com/profile/03189301942271218843 Johnnie Lustoza

      Obrigado pelo elogio Luciana. A Irlanda é um destino que não pode ficar para trás nesse blog, por isso fiz esses posts sobre ela. A Guinness e os pubs irlandeses muito menos. Já estou escrevendo outros posts sobre a Irlanda e um deles irá falar das Alehouses do interior do país. Gosto muito de lá e espero estar conseguindo transmitir nessas postagens o que eu sinto pelo país, principalmente em se tratando de um destino cervejeiro…
      Pode deixar que vou visitar seus blogs. Obrigado

BBC