Ípa ou Ái Pí Êi: qual a pronúncia correta?

A pronúncia do nome de cada estilo de cerveja é algo sempre cheio de dúvidas e incertezas, além de ser um tanto quanto confuso para pessoas que não dominam o idioma em questão. Eu não conseguiria quantificar as pessoas que se sentem constrangidas ao tentar falar de um estilo sem saber a pronúncia correta, mas é fato que a timidez ou a insegurança, para algumas pessoas, pode causar problemas na hora de pedir ou falar de um estilo cujo nome é de difícil pronúncia. Afinal, qual é a pronúncia correta do nome de cada estilo de cerveja?

Pronúncia correta

Quantas vezes eu me deparei com pessoas tentando comprar um “Home Theater” mas não sabiam pronunciar esse nome tão complicado? Foram inúmeras vezes, mas na maioria delas essas pessoas deram um jeito e pediram um “Rome Fíater”, um “Rome Tíater” ou mesmo um “Rome Títcher” e em todas elas os vendedores souberam do que se tratava. Resultado: essas pessoas foram atendidas, sem problema algum, o que é normal já que essa é uma palavra estrangeira, o que reflete nos “falantes nativos” da língua portuguesa que acabam por pronunciar esse termo da maneira que lhes parece mais próxima daquilo que eles estão lendo.

Por outro lado, quando o assunto é cerveja e eu ouço alguém pronunciar “Ípa” (da sigla IPA, derivada do estilo India Pale Ale) ou “Pále Ále”, subitamente sou tomado por um ansioso sentimento (ou pressentimento) de que logo logo esse alguém será corrigido, ou então criticado. E esse moralismo xenofílico me deixa indignado.

Ora, se o diálogo está sendo proferido em português, o que há de errado em adaptar a pronúncia de uma palavra estrangeira? Não que os assuntos cervejeiros não sejam sérios a ponto de um termo estrangeiro merecer uma pronúncia correta, mas se estamos em uma mesa de bar, numa conversa informal, ou num balcão, não há nada de errado em cometermos erros fonéticos que, ao meu ver, nem podem ser considerados erros. E por que não? Simplesmente porque nós brasileiros, no que tange a comunicação em seu sentido primordial, não temos a obrigação de saber pronunciar nem mesmo certas palavras em português para sermos compreendidos uns pelos outros.

Se cruzarmos a fronteira brasileira e formos parar nos países que são escolas de tradições cervejeiras, iremos nos deparar com essa mesma questão, mas com um valor completamente diferente do que atribuímos aqui no Brasil. E em certos países, como na França, alguns estilos chegam até mesmo a serem traduzidos para o idioma nativo, como é o caso do estilo Witbier que por lá é chamado de Bière Blanche. Em ambos os casos, eles significam “cerveja branca”.

Em países como a Alemanha e Bélgica, é comum que as pessoas saibam outros idiomas além dos idiomas nativos, mas mesmo isso não lhes tira o sotaque ao pronunciar o nome de um estilo em um idioma estrangeiro, sendo que, muitas vezes, o que acontece é uma adaptação daquele nome para o seu próprio idioma, o que aqui seria o caso da nossa “Ípa”.

Obviamente, quando estamos no exterior, é interessante que nos esforcemos para aproximar a nossa pronúncia à fonética da língua do país em questão, até mesmo para sermos compreendidos sem a necessidade de se fazer mímica para a comunicação, mas se houver a necessidade da mímica, não há mal nenhum em usá-la. E se não soubermos o idioma, nada de ir embora de cabeça baixa, pois ainda vale o esforço de nos fazermos ser entendidos da maneira que for, respeitando os limites da nossa boa educação e também dos costumes locais, claro.

Voltando ao Brasil e voltando aos motivos que me levam a ficar indignado com essas pessoas que têm a eterna mania de corrigir tais erros, eu acho pouco justo uma bebida, que é notavelmente conhecida por ser socializadora, se tornar excludente ao sairmos daquele mundinho dominado pelas “loiras geladas” e nos abrirmos ao universo dos vários estilos de cerveja que existem por aí. Excludente porque ao julgarmos que uma pronúncia está errada, estamos impondo padrões e limites à liberdade que cada um tem para pronunciar uma palavra da maneira que for lhe conveniente. Isso se torna mais excludente ainda quando passamos a julgar a pessoa que pronuncia errado. E ainda que a pronúncia errada possa dar a impressão de que há uma falta de conhecimento sobre o assunto, todos têm o direito de falar sobre o que quiser, da maneira que for. No fim das contas, tudo converge para o próximo gole de cerveja.

Precisamos entender que a nossa “luta” é para que todos bebam melhor e não para que todos falem melhor. Impor uma pronúncia correta não deveria ser preocupação de quem quer levar a cultura cervejeira a todos, pelo menos não daqueles que pretendem fazer crescer a busca pelas cervejas artesanais e especiais em toda e qualquer parcela da população.

Pronúncia correta

Eu que, por vários motivos, incluindo gosto pessoal, já tinha uma certa preguiça das cervejas “Ípa” (já cheguei a chamá-las de “modinha barbecue”, mas isso passou a me soar ofensivo e resolvi parar, já que gosto é gosto e nunca foi minha inteção discutir isso), fico ainda mais preguiçoso com esse estilo ao ver alguém chamando a atenção para o correto nome “Ái Pí Êi”. Inclusive já desafiei inveterados defensores da boa pronúncia a pronunciar “Pale Ale” e acabei ouvindo um sonoro e destorcido “Pêiou Êiou”. Para nós isso soa próximo do inglês, mas para um nativo da língua inglesa, isso soa bem diferente do “pāl āl” que eles estão acostumados a falar. Já pedi também às mesmas pessoas para pronunciar “Northern Brown Ale” e o desastre foi ainda maior. Aliás, desastre não, desvio, já que mesmo eles têm o direito de errar… e erram.

Pronúncia correta

Pronunciar “Ái Pí Êi” não é algo difícil, mas sempre existe a chance de uma pessoa não saber pronunciar simplesmente por não ter uma referência prévia de que o nome IPA vem do inglês (quantas cervejas brasileiras têm seu nome em português seguidos da sigla IPA?). Problemas maiores surgem quando nos deparamos com nomes como Kölsch, Rauchbier, Alt e Bière Blanche, que são exemplos que ilustram e resumem bem o cerne dessa discussão.

Pronúncia correta

Para mim pouco importa se apaixonados por Bière Brut vão torcer o nariz ou embrulhar o estômago ao me ouvir aportuguesando esse lindo nome. Para mim pouco importa se os amantes do “Merlot” ou “Noir” vão me achar um “caipira cervejeiro”. Não que eu não saiba a pronúncia na língua em questão (em algumas situações a pronuncia correta não me parece conveniente e em outras eu tenho preguiça mesmo de pronunciar), mas também não me preocupo se um cervejeiro ou um beer sommelier premiado vai me desmerecer simplesmente por eu não saber a “pronúncia correta” de um determinado estilo. Desde que eu seja compreendido pelos meus compatriotas, eu já me sinto aliviado e se eu não for, paciência pois, para mim, um verdadeiro “beerlover” sempre vai saber que uma “Ípa” é uma “Ái Pí Êi”.

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