A Cervejaria Wäls, a união com a Bohemia e o “mimimi” nas redes sociais

No dia 10/02/2015, uma notícia chamou a atenção do público cervejeiro no Brasil: a união entre as cervejarias Wäls, de Belo Horizonte (MG) e Bohemia, de Petrópolis (RJ). Mesmo antes do anúncio oficial ser proferido pelos proprietários das duas cervejarias, alguns veículos já haviam dado o furo da notícia, porém, de forma aleatória e sem muitas fontes além das especulações, o que contribuiu para aumentar o burburinho e atiçar os nervos.

União da Wäls com a Bohemia

fonte: Divulgação

Na verdade, trata-se de uma união dos ativos das duas marcas e não a compra de uma pela outra, como andam dizendo por aí. Os proprietários da Wäls passaram a ser sócios da cervejaria Bohemia, a qual passa a existir como uma nova empresa, possuindo, inclusive, um novo CNPJ.

Segundo os proprietários das duas cervejarias, nada muda. As receitas serão mantidas, bem como as parcerias que renderam frutos como a Saison de Caipira, criada em conjunto com o mestre cervejeiro Garrett Oliver da Brooklyn, EUA, bem como a Petroleum, em parceria com a cervejaria DUM, de Curitiba (PR).

Como equipe, muita coisa será produzida em conjunto, mas todas as equipes também produzem coisas separados. Foi o que disse José Felipe Pedras Carneiro, mestre-cervejeiro e um dos sócios proprietários da Wäls. A ideia é seguir adiante com os projetos de cada cervejaria, de forma separada e sem que se altere sua natureza, mas também ser uma equipe para produzir em conjunto, bem como alcançar novas fatias de mercado, as quais são bem distintas para cada uma das partes.

A ideia é unir os conhecimentos e a vocação para o desenvolvimento de grandes cervejas que é o caso da Wäls, com a expertise da Ambev, sua logística de distribuição e nome no mercado o que dará à Wäls a possibilidade de atingir um público ainda maior, um maior poder de marketing e diminuição do preço final, visto que poderão acontecer maiores investimentos e compra de insumos a preços mais acessíveis. O blog Bebendo Bem ilustra muito bem um exemplo parecido com este em um dos seus post (link aqui), que foi o caso da venda da artesanal americana, Goose Island, para o grupo AB-InBev e retrata os prós e contras desse tipo de ação.

Para celebrar essa união, a nova cervejaria já está produzindo a Saison d’Alliance, uma cerveja do estilo Saison/Farmhouse Ale que leva em sua receita gengibre, sálvia e hortelã, além de leveduras da região da Valônia, sul da Bélgica, sendo a mesma utilizada para a fabricação da cerveja Leffe.

No anúncio oficial da parceria, os proprietários frisaram que a fusão nada tem a ver com o projeto da Wäls nos EUA, onde seus proprietários irão inaugurar uma cervejaria em San Diego, Califórnia, com outros parceiros e sócios e com o nome de NOVO Brazil Brewing CO.

A Wäls é uma cervejaria mineira que nasceu para abastecer a rede de fast food, que também é propriedade dos mesmos donos da cervejaria. Com o tempo houve uma mudança de perspectivas e prioridades, assim, a cervejaria passou a ser o centro das atenções e investimentos da família Pedras Carneiro. Nos últimos anos a Wäls conquistou diversos prêmios nacionais e internacionais, sendo as medalhas de ouro e prata na World Beer Cup, com as cervejas dos estilos Dubbel e Quadruppel, respectivamente, os mais importantes.

Como a Wäls sempre esteve preocupada com a inovação e a qualidade dos seus produtos, rapidamente ela caiu no gosto dos aficionados por cervejas especiais e após ser agraciada com diversas premiações, ela acabou se consolidando com uma das maiores cervejarias artesanais brasileiras.

A Bohemia, por outro lado, é uma das marcas da Gigante belgo-brasileira AB Inbev, que detém uma fatia de aproximadamente 14% do mercado mundial de cervejas. Como cervejaria, a Bohemia é pioneira no Brasil, sendo a primeira cervejaria industrial brasileira (confira aqui um post sobre a história da cerveja no Brasil). Como pioneira, foi responsável por apresentar ao público rótulos até então nunca imaginados pelos consumidores mainstream, tais quais a Bohemia Weiss, a Schwarzbier, a Confraria e ate mesmo as extintas Royall Ale e a Bohemia Oaken.

Recentemente, a Bohemia apresentou para o público a Bohemia Reserva, uma cerveja do estilo Barley Wine produzida de forma limitada (3978 garrafas) em 2012, ficando em maturação até o seu lançamento no final de 2014 e deixando muita gente sem saber do que se tratava essa ação. Muitos duvidaram de que essa seria uma boa cerveja e se diziam descrentes dessa possibilidade por se tratar de cerveja produzida por uma indústria que não se preocupa com a “qualidade”. Outros viram com bons olhos mas acharam muita ousadia uma cervejaria mainstream lançar no mercado uma cerveja que custasse R$120,00. O resultado pôde ser comprovado e aprovado por quem a experimentou, incluindo os grandes especialistas nacionais.

O lançamento da Bohemia Reserva começou a ventilar na mídia algumas outras especulações como o lançamento de mais rótulos especiais, o que se confirmou no festival Mondial de la Bière 2014, que aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, onde foram apresentados mais 3 rótulos especiais: a Jabutipa (estilo IPA com Jabuticaba), a Bela Rosa (estilo Witbier com pimenta rosa) e Caá-Yari (estilo Blond Ale com erva mate). Todos eles arrancaram elogios do público, especializado ou não e colocaram a Bohemia de vez no mercado de cervejas artesanais. Foi lançada então uma especulação ainda maior, de que a Bohemia queria entrar de vez no mercado de cervejas artesanais e que seria questão de tempo até que ela começasse a anunciar parcerias com algumas micro cervejarias.

O resultado foi esse, a união de uma cervejaria artesanal de qualidade incontestável e uma cervejaria de produção em larga escala, inovadora e líder de mercado. Mas com isso começaram as bombas e declarou-se aberta a temporada de “mimimi”.

Pseudo-especialistas, cervochatos e beersnobs de todo o Brasil metralharam as redes sociais com mensagens de desaprovação e críticas ao ocorrido. “Memes” com piadas cervejeiras se espalharam rapidamente entre os fãs de cervejas artesanais. Mensagens como “vendidos”, “iremos beber suco de milho” e “gananciosos” foram espalhadas como pragas de gafanhotos. O mais interessante é que boa parte desses “críticos” nem sequer sabiam do que estavam falando e alardeando. Muitos talvez nem sejam consumidores da Wäls (ou apenas experimentaram um rótulo ou outro), sendo que certamente muitos deles são consumidores de Bohemia Pilsen (a Standard American Lager da cervejaria Bohemia e não a Bohemian Pilsener da Wäls). Poucos haviam lido as verdadeiras notícias sobre essa parceria e espalharam, sem fontes, suas palavras de maldizer.

O mais interessante, por incrível que pareça, é que para esses “críticos”, pouco importa a vontade daqueles que optaram por essa união. Menos ainda o que pode vir de bom com isso tudo. Para eles, criticar não exige uma lógica coesa com a realidade. Basta ver exemplos bem sucedidos de fusões entre grandes marcas e cervejarias menores e que em pouco tempo se mostraram bem sucedidas diante dos críticos. Deu certo na Alemanha com a Spaten-Franziskaner, deu certo nos EUA com a Goose Island, funcionou aqui no Brasil com a Baden Baden e Eisenbahn, mas a arte de criticar e meramente aparecer ao pegar carona nesse vácuo deixado pela passagem de uma notícia tão avassaladora quanto essa, isso sim não tem preço. Claro que os exemplos citados acima foram modelos diferentes de união em relação à Wäls/Bohemia, mas ainda assim eles funcionaram.

O que vemos em todas essas críticas infundadas desses filósofos de porta de livraria botequim é muito exibicionismo e pouco propósito, a exemplo do “em nome do pai” antes de puxar o gatilho: não vale de nada, mas pensa-se que redime a culpa do atirador.

A maioria dos que chamaram a Wäls de vendida, não pensaria duas vezes em trocar de emprego caso lhe oferecessem um salário 5 vezes maior, ainda que o emprego oferecido fosse um saco. “Estou fazendo o meu pé de meia”, diriam. Agora eu pergunto: se uma micro cervejaria artesanal estivesse à beira da falência, algum deles iria ate suas redes sociais postar mensagens de apoio? Será que alguém participaria de alguma campanha para levantar fundos para que a falência fosse evitada, ou então que a cervejaria fosse comprada por uma gigante do ramo? Protestar movendo o mouse é muito fácil e tão inútil quanto xingar o atacante do seu time através da televisão. Mas caso o atacante faça o gol da virada, a cara de tacho vai lá no chão.

Isso me faz lembrar o exemplo da série americana, Lost, e seus fãs que diziam que os roteiristas iriam se perder no caminho, sem nem mesmo terem passado da primeira temporada. O tempo mostrou que os fãs estavam certos e a resposta do público veio na audiência, que caiu drasticamente. É o mesmo caso da Wäls, ninguém tem noção do que vem pela frente e já querem predizer o futuro. Se o que foi prometido não se cumprir, existem os formulários online de contato das duas cervejarias. Reclamem, cobrem o retorno da qualidade. E se ainda assim a qualidade não voltar, façam como fizeram muitos belgas em relação à Stella Artois: parem de beber aquilo que não lhes agrada. Inundem as redes sociais com mensagens de “eu avisei” e “#eujásabia”, mas ficar de mimimi “em prol do movimento” é muita lágrima de crocodilo para inglês ver.

Parabéns a Wäls pela conquista. Sucesso sempre. Saúde.

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